Conforme prometido, aqui deixo as minhas impressões sobre o recém lançado número da primeira revista nacional dedicada ao estilo e visual da Manga. Alerto já que não tenho qualquer tipo de interesse ou ligação à revista, além do de mero leitor e que muito menos sou crítico especializado na matéria. Digamos que apenas comprei um exemplar, o li e apreciei e aqui partilho aquilo que o seu desfrute me suscitou.
As estórias
As estórias
Esta edição retoma as histórias do nº zero, TMG-The Mighty Gang (de Joana Rosda Fernandes) e Kuroneko (de Cristina Dias), obrigando novos leitores a ter de procurar a edição mais antiga porque, especialmente no caso de TMG o resumo incluído é insuficiente para se ter uma noção minimamente decente do que se passou no nº original, sob pena de se perder o proverbial fio-à-meada mesmo considerando a inclusão de um resumo (de novo escrito em Português de rigor duvidoso). Também os diálogos são inconsistentes na maior parte, dando às falas (de novo a escrita…) a sensação de lá estarem apenas para “compor” os desenhos, enfeitarem uns balões e pouco mais, sendo votadas ao triste papel de meros acessórios minimalistas. Como exemplo, basta seguir a quebra na linha narrativa iniciada na página… (esperem, que página é, mesmo? Deixa cá voltar ao início da revista e começar a contar, que os editores esqueceram-se de nos facilitar a vida, imprimindo a respectiva numeração, quer nas pranchas quer nas páginas, elas próprias) 4, em que a Sara pergunta à Joana “Porque queres ir a Inglaterra?” e meia dúzia de quadrados depois esta se parece contentar com a resposta “(…) estou à procura de uma pessoa.” ficando o assunto em suspenso e passando a Sara a outros considerandos. Adiante. Sem querer spoilar demasiado o enredo, a introdução aos poderes de cada um no trio poderiam ser-nos apresentados não tão de supetão, não percebendo bem o porquê da dispersão com que se manifestam ou mesmo da sua coerência (veja-se a luta de Joana Mubarak contra um demónio leonino (sic, juro) com pretextos tão fracos (é fazerem o favor de comprar a revista e lê-la, que mais não conto). O cliffhanger no final da “Missão 03” merecia uma indicação do tipo “Continua no próximo número” bem como a tradução da expressão japonesa com que a Sara se apresenta; a revista não pode dar-se ao luxo de se dirigir somente a geeks, pensando antes que todo o tipo de pessoas (e de todas as idades) a irão potencialmente ler.
Sobre Kuroneko a coisa ainda é mais difícil de descrever. Aquilo que até foi uma boa surpresa, relativamente falando, no número 0, aqui está montada de tal forma e numa sequência tão surreal (é o mínimo que posso escrever) que quase se lhe perde o sentido.
Pandora’s Song
Um destaque especial para a história inédita escrita por Rita Marques, com desenhos desta e de Inês Pott, é o (di-lo a própria revista) “(…) primeiro one-shot de novos autores proposto à NCreatures (…)”. Para mim constitui a suprema surpresa positiva desta edição, dando-me azo a comentar que se aqui se trata de ‘novas obras e novos autores’ (sic), então esta dupla criadora de Pandora’s Song consegue ultrapassar, e à dita légua, as duas obras repetentes na Banzai... Direi mesmo que o preço de capa é só por si justificado à conta delas. Donas de um traço escorreito, elegante e homogéneo, com uma muito subtil sugestão de sensualidade, acompanhado de um bom argumento e ideia originais através de todos os quadradinhos, o enredo tem princípio-meio-e-fim (perdoem-me o lugar-comum). Arrisco mesmo a dizer, algo cinicamente, que as consagradas deste nº 1 da Banzai são efectivamente a Rita e a Inês e não as autoras das duas histórias repetentes. É neste nível de produção e resultados que a revista deve apostar e apontar a sua mira doravante. Digo-o como seu leitor pagante: é isto que quero continuar a ver em edições futuras e é por estes caminhos de exigência e qualidade que a NCreatures deve seguir se quiser sair do nicho de “objecto feito para amigos e conhecidos-de-conhecidos”. Só assim poderá fazer-nos desembolsar futuramente outros tantos múltiplos de €5,50.
Aprender Manga
Volto a dar uma de cínico dizendo que esta nova secção se deveria antes chamar de “Aprender Manga e Bom Português”. Curiosa, mas nada mais há a dizer da sua utilidade. Espera-se mesmo que alguém se torne um artista gráfico especializado no traço à japonesa só porque a acompanhe? Negativo. Não menosprezando o valor do didactismo da ideia, considero que mais bem ocupadas seriam estas 9 páginas se, antes, nelas estivesse impressa outra história curta, no género de Pandora’s Song. Ou os tais novos talentos (no que me concerne sempre pensei que novos eram eles todos e não apenas a Rita e a Inês) não são assim tantos ou de qualidade mínima comprovada para evitar pô-los a NCreatures à espera do nº 2 da revista? Digamos que aqui se trata de um filler (“enchedor de chouriços”, à portuguesa, e desnecessário, repito, mesmo levando em conta que se trata do resultado da colaboração de alguém que dá formação académica no âmbito do Manga).
Showcase
Amostra de dupla página com desenhos de Marta Patalão. De novo, e pela amostra, fico curioso e a perguntar-me como seria uma história completa desenhada por esta autora, de tal forma gostei do resultado. Para mim, mais sentido faz este showcase, do que o dispensável pseudo-didactismo da secção a que me refiro anteriormemte. A repetir, mas apenas se mais nada tiverem para oferecer aos leitores.
Showcase
Amostra de dupla página com desenhos de Marta Patalão. De novo, e pela amostra, fico curioso e a perguntar-me como seria uma história completa desenhada por esta autora, de tal forma gostei do resultado. Para mim, mais sentido faz este showcase, do que o dispensável pseudo-didactismo da secção a que me refiro anteriormemte. A repetir, mas apenas se mais nada tiverem para oferecer aos leitores.
Considerações finais
Não bastam uma capa nova-rica e uma impressão em papel decente para se fazer uma boa revista de banda desenhada em estilo Manga, ou outro. Muita coisa há ainda a limar e corrigir em edições futuras da Banzai, isto se a NCreatures quiser aumentar (no mínimo, manter?) uma audiência fiel e interessada no seu produto-de-inspiração-nipónica-em-versão-portuguesa. Para mim continua a ser inadmissível que a língua que usamos para comunicar seja tratada de forma tão amadorística. O seu uso correcto deveria ser revisto e bem analisado antes de ser colocado no papel. Assim como saiu (repito: pela segunda vez) parece mais um fanzine glorificado que uma revista que se quer (?) séria. O tratarmos aqui de um objecto que lida maioritariamente com o desenho não pode ser desculpa para que o texto seja tão displicentemente — ingenuamente? — (mal) tratado. Fico com aquela sensação do "sabe-a-pouco". Resumindo: olhos grandes e onomatopeias apenas não fazem uma obra de manga. Lamento (mas prometo adquirir o #2).








