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segunda-feira, 27 de junho de 2011
Os políticos portugueses e "o futuro".
Cada vez que um político (ou candidato "a") decide publicar obra escrita, invariavelmente a palavra "futuro" ou as suas ideias para o "futuro" são o seu móbil, se não em título pelo menos em espírito. Desde que, em 1974, António de Spínola escreveu o seu "Portugal e o Futuro" que recentemente vieram ao prelo livros como "Portugal na Hora da Verdade", "Mudar" ou o mais recente "Compromissos para o Futuro". Tudo isto me tem feito pensar se esta não será uma forma de, subrepticiamente e ao abrigo de boas vontades e do afirmar de "soluções" para todos os portugueses, os próprios autores — repito: políticos, ou futuros candidatos a — não estejam a esqueçer-se do "passado", o tal que nos levou à situação em que eles, responsáveis máximos pela situação para a qual, com as suas obras, querem propor "soluções" milagrosas e nunca antes antecipadas. Por mim preferiria antes que houvesse, quiçá, mais livros sobre o nosso passado político por forma a que ao menos o não esqueçêssemos, nem aos erros que nos levaram a ter de encarar o futuro de forma mais realista. A tal forma que, com estes livros, os autores (pelo menos) verão a sua própria vida futura com maior conforto financeiro. À nossa conta, mais uma vez...
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Crónica a ler: "O robô e a máquina de propaganda"
Diga-se o que (dele e do jornal semanário que dirige) se disser, as crónicas de José António Saraiva (inclusive as que escrevia na coluna Política à Portuguesa quando era director do Expresso) sempre me soaram a análises bem escritas, bem pensadas e, acima de tudo, actuais e certeiras. No semanário SOL a sua Política a Sério mantém a mesma qualidade. No dia 30 do mês passado escreveu a crónica em título. A dois dias de eleições legislativas antecipadas em Portugal, vale a pena ler e meditar no que ele escreveu. Para que depois cada português possa votar em consciência e na posse de argumentos fortes (infelizmente para todos nós) e lógicos. Aqui não há demagogia, nem muito menos propaganda partidária. Apenas um cidadão que pensa pela sua cabeça, expondo a sua maneira de ver a actualidade política portuguesa. Com a qual não posso deixar de concordar.
O robô e a máquina de propaganda
A máquina do Governo dispõe de uma redacção que ataca os artigos e os colunistas considerados hostis. Muitas vezes fala-se da ‘máquina de propaganda’ do Governo socialista.
Mas nunca houve uma tentativa séria de investigar como funciona, que métodos utiliza, quantas pessoas envolve, quem a dirige, etc.
Vou dizer o que sei.
Essa máquina desdobra-se por várias frentes. Tem uma espécie de redacção central, que funciona como a redacção de um jornal, cuja missão é fazer constantemente contra-propaganda. Dispõe de um blogue chamado Câmara Corporativa (http://corporacoes.blogspot.com) e está permanentemente atenta a tudo o que se publica, desmentindo as notícias consideradas negativas para o Governo. Além disso, critica artigos de opinião publicados nos jornais, rebatendo os argumentos e, por vezes, ridicularizando ou desacreditando os seus autores. Mobiliza pessoas para intervir nos fóruns tipo TSF que hoje existem em todas as estações de rádio e TV. Selecciona na imprensa internacional notícias, artigos ou entrevistas favoráveis ao Governo português e põe-nos a circular entre jornalistas e colunistas ‘amigos’. É por esta última razão que vemos às vezes opiniões publicadas em obscuros órgãos de comunicação estrangeiros citadas em Portugal por diversas pessoas como importantes argumentos.
Outra vertente são as relações com jornalistas. Há uma rede de jornalistas ‘amigos’ e a coisa funciona assim: um assessor fala com um jornalista amigo e dá-lhe determinada informação. Chama-se a isto ‘plantar uma notícia’ – e todos os Governos o fazem. Só que, uma vez a notícia publicada, às vezes com pouco destaque, os assessores telefonam a outros jornalistas e sopram-lhes: «Viste aquela notícia no sítio tal? Olha que é verdade! E é importante!». E assim a notícia é amplificada, conseguindo-se um efeito de confirmação.Umas vezes as notícias plantadas são verdadeiras, outras vezes são falsas. O Expresso, por exemplo, chegou a publicar em semanas consecutivas uma coisa e o seu contrário. Significativamente, o que estava em causa era Teixeira dos Santos, que o PS queria queimar. E constata-se que as notícias desagradáveis para a oposição têm mais eco do que outras. Veja-se a repercussão que teve uma carta de António Capucho publicada no SOL, que era um documento interessante mas não tinha a relevância que acabou por ter. A máquina de propaganda amplifica as notícias que interessam ao Governo.
Em seguida, os comentadores colocados pelo PS nos vários programas de debate que hoje enxameiam as televisões repetem os argumentos convenientes. José Lello, Sérgio Sousa Pinto, Emídio Rangel, Francisco Assis, etc., repetem à saciedade, às vezes como papagaios, as mesmas ideias. E mesmo António Costa, na Quadratura do Círculo, um programa de características diferentes, não foge à regra: nunca o vi fazer uma crítica directa a Sócrates. Mas vi-o fazer uma crítica brutal a Teixeira dos Santos, na tal altura em que começou a cair em desgraça.
As únicas situações em que as coisas fugiram do controlo da máquina socrática foram os casos Freeport e Face Oculta. Só que aí era impossível abafá-los. E para os combater foram lançadas contra-campanhas, como expliquei noutros artigos. E houve pessoas que pagaram por isso.A par das relações com os jornalistas, que se processam diariamente, há outro aspecto decisivo que passa pelo controlo dos principais meios.A tentativa de comprar a TVI falhou, mas José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes foram afastados e a orientação editorial da estação mudou. José Manuel Fernandes foi afastado do Público, e a orientação do jornal também mudou. Medina Carreira foi afastado da SIC. O SOL foi alvo de uma tentativa de asfixia. E estes são apenas os casos mais conhecidos.
Por outro lado, o Governo soube cultivar boas relações com os patrões dos grandes grupos de media – a Controlinvest, a Cofina e a Impresa –, também como consequência das crises financeiras em que estes se viram mergulhados.Podemos assim constatar que, das três estações de TV generalistas, nenhuma hoje é hostil ao Governo. A RTP é do Estado, a TVI – que era muito crítica – foi apaziguada, a SIC tem--se vindo a aproximar do Executivo. Ora isto é anormal na Europa. Em quase todos os países há estações próximas da esquerda, há estações próximas da direita, há estações próximas do Governo, há estações próximas da oposição. Em Portugal é diferente.
Ainda no plano da contra-propaganda, já falei noutras alturas da técnica do boomerang. Como funciona? Quando alguém da oposição (regra geral, o líder do PSD) diz qualquer coisa passível de exploração negativa, toda a máquina se põe a mexer para usar essa ideia como arma de arremesso contra quem a proferiu.Passos Coelho diz que quer mudar certas regras na Saúde – e logo Francisco Assis, Silva Pereira, Vieira da Silva, Jorge Lacão ou Santos Silva, os gendarmes de serviço, vêm gritar: «O PSD quer acabar com o Serviço Nacional de Saúde!». Passos Coelho diz qualquer coisa sobre as escolas públicas e as privadas – e lá vêm os mesmos dizer: «O PSD quer acabar com o ensino público gratuito!». Passos Coelho diz que quer certificar as ‘Novas Oportunidades’ – e os mesmos repetem: «O PSD ofendeu 500 mil portugueses!». E, no final, todos dizem em coro: «O PSD quer acabar com o Estado Social!».Passos Coelho não soube lidar com isto de início. E, perante estes ataques, acabou muitas vezes por bater em retirada. Propôs uma revisão constitucional e recuou. Outras vezes explicou-se em demasia. E com isso deu uma ideia de impreparação e falta de convicção, que só recentemente conseguiu corrigir.
Mas a máquina não fica por aqui. Tem muitas outras frentes de combate. Os assessores do primeiro-ministro organizam dossiês para cada ministro, dizendo-lhes como devem reagir perante o que diariamente é publicado na imprensa. Assim, bem cedo pela manhã, um assessor telefona a um ministro, faz-lhe uma resenha da imprensa e diz-lhe o que ele deve responder a esta e àquela pergunta.Claro que há ministros que não aceitam este paternalismo. Que querem ter liberdade para responder pela sua cabeça. Mas esses ficam logo marcados. Admito que Luís Amado não aceite recados, estou certo de que Campos e Cunha não os aceitou, Freitas do Amaral também não. Mas a maioria dos outros aceitou-os ou aceita-os, até para tranquilidade própria: assim têm a certeza de não cometer gaffes e não desagradar ao primeiro-ministro.
E já não falo nos boys colocados em todos os Ministérios e em todas as administrações das empresas públicas e que funcionam como correias de transmissão da opinião do Governo. Rui Pedro Soares é o caso mais conhecido. Mas obviamente não é o único. Eles estão por toda a parte. Muitas vezes nem têm posições de grande relevo. Mas o facto de se saber que são os porta-vozes do poder confere-lhes importância acrescida, porque as pessoas receiam-nos.Como resultado de tudo isto, muita gente, mesmo dentro do PS, tem medo. Evita falar. No congresso socialista, que mais parecia um encontro da IURD, vimos pessoas respeitáveis participar alegremente na farsa sem um gesto de distanciação. Chegou a meter dó ver António Costa, António Vitorino, o próprio Almeida Santos, envolvidos naquela encenação patética.Que foi produzida como uma super-produção, com sofisticados meios audiovisuais. Quando Sócrates começou a proferir a primeira das três últimas frases do seu último discurso, uma música ‘heróica’ começou a ouvir-se baixinho. E foi subindo, subindo de tom – e quando Sócrates acabou de falar a música estoirou, as luzes brilharam, não sei se houve fogo preso mas podia ter havido, choveram flores, foi a apoteose.
Quem dirigirá esta poderosa e bem oleada máquina de propaganda e contra-propaganda?
Haverá certamente um núcleo duro, ao qual não serão alheios aqueles que dão a cara nos momentos difíceis: Francisco Assis, Jorge Lacão e os três Silvas: Vieira da Silva, Augusto Santos Silva e Pedro Silva Pereira.Há quem fale numa personagem misteriosa, sibilina, que não gosta dos holofotes e que dá pelo nome de Luís Bernardo. Actualmente é assessor de Sócrates, antes foi assessor de Carrilho na Cultura. Pedro Norton, actual número 2 da Impresa e seu amigo, diz que ele é «o homem mais inteligente que conhece».Acontece que uma máquina política pode ser muito boa, pode estar muito bem oleada, pode funcionar na perfeição, mas tem sempre um ponto fraco: depende em última análise da performance de um homem.
Durante anos essa performance foi quase perfeita – por isso chamei a Sócrates um ‘robô político’. Ora esse robô, agora, começou a falhar. E a derrota televisiva perante Passos Coelho pode ter posto em causa toda a engrenagem. O robô engasgou-se, exaltou-se, esteve à beira de colapsar.E quando isso acontece não há máquina de propaganda que valha.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Noutros blogs: A ler e a ver
A ler, com vídeo, o post do blog Blasfémias intitulado "Fracasso do socialismo ao vivo", citado pelo blog P L O C K I N G no post "isto é uma delícia, pá!".
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Tipicamente português...
Embora (claro) o refira em termos relativos, o português comete as maiores barbaridades achando que um "Desculpe" ou "Obrigado" lhes retiram toda a importância ou gravidade.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Portugalnomics: Ep. 1 (Finland: *this* is Portugal!)
Factos que a Finlândia devia ter presentes antes de julgar Portugal, mesmo sendo certo que não é (só) o passado que justifica o valor de uma nação.
Viagens:
Comparativas,
Culturais,
Estatísticas,
Históricas,
Importantes,
Informativas,
Inovadoras,
Inspiradoras,
Mundiais,
Políticas,
Portuguesas,
Videológicas
quinta-feira, 28 de abril de 2011
"Atados"
"atados" é um dos textos que mais gostei de ler no blog do colega P L O C K I N G. Depois de interiorizar bem aquilo que nele se transmite, não me consegui impedir de pensar como parece ter sido tirado da minha cabeça (não, não estou a reclamar autoria) tal a coincidência e comunhão de pensamento. Cito o seu início, com a devida vénia (espero que não se importe):
O texto termina assim:
Agora impõe-se a pergunta: onde, exactamente, deverá ter lugar a discussão? Parece-me óbvio que um dos locais de eleição (em mais de um sentido...) deveria ser a Assembleia da República, mas, pensando bem, e relendo o texto e pela experiêcnia própria que já vivi, afinal "eles" não são assim tão merecedores da "nossa" confiança e, quiçá, a Assembleia raras vezes em Democracia portuguesa se tenha revelado como um verdadeiro fórum representativo de quem vota nos que naquele hemiciclo se sentam. Mas como somos "nós" que os "lá" colocamos por meio do "nosso" voto (desculpem a repetição), que tal usarmos as próximas eleições legislativas de 5 de Junho de 2011 para o fazer? Antes de "os" sentarmos "lá".
"atados"
"Ninguém faz nada", "não há quem faça nada", "deveria haver alguém que". "Eles" isto, "eles" aquilo… Nestas ubíquas expressões populares, "Ninguém" ou "Alguém" são invariavelmente terceiras pessoas, com a cada vez mais utópica responsabilidade de nos resolver os problemas. São portanto seres cada vez mais míticos e certamente já endeusados. O sebastianismo português conjugado com o fado e com a "culpa é sempre dos outros" faz de nós uma sociedade atada, de atados. Esta mentalidade passiva admite a permanente progressão do estado sobre as nossas vidas, que não tarda em atingir cúmulos absurdos no campo social, económico e político se não lhe efectuarmos a devida oposição. Porque nos alheamos, não nos interessamos e claramente neles delegamos, acabamos governados por tecnocratas e burocratas que nos mandam e desmandam por via de uma legis, um conjunto de regras, obrigações e deveres que cada vez mais nos privam das nossas liberdades individuais e consequentemente da nossa capacidade de intervenção e de iniciativa. (...)
O texto termina assim:
(...) Com mais ou menos socialismo "progressista", com mais ou menos social-democracia "moderna", que no século XXI tanto se diluem e confundem. Iniciemos pois essa discussão sob pena de nos quedarmos, uma vez mais, pela espuma. Se não por nós, pelos nossos filhos.
Agora impõe-se a pergunta: onde, exactamente, deverá ter lugar a discussão? Parece-me óbvio que um dos locais de eleição (em mais de um sentido...) deveria ser a Assembleia da República, mas, pensando bem, e relendo o texto e pela experiêcnia própria que já vivi, afinal "eles" não são assim tão merecedores da "nossa" confiança e, quiçá, a Assembleia raras vezes em Democracia portuguesa se tenha revelado como um verdadeiro fórum representativo de quem vota nos que naquele hemiciclo se sentam. Mas como somos "nós" que os "lá" colocamos por meio do "nosso" voto (desculpem a repetição), que tal usarmos as próximas eleições legislativas de 5 de Junho de 2011 para o fazer? Antes de "os" sentarmos "lá".
segunda-feira, 25 de abril de 2011
25 de Abril de 1974. 37 anos depois, o quê?

Festeja-se hoje a Revolução de 25 de Abril de 1974. E festejamo-la, em meu entender, de forma triste e forçada. A verdade, é que o momento que actualmente vivemos como país e sociedade em nada justifica ambientes festivos. Mas estes lá (cá) têm lugar. De braço dado com a Troika formada pelo Banco Central Europeu (BCE), Comissão Europeia (CE) e Fundo Monetário Internacional (FMI), que se instalou em Portugal — Paulo Portas disse este fim de semana no show televiviso de Nicolau Breyner que "Troika não existe; em Português diz-se quanto muito "Triunvirato"" (a definição explica, algo lugubremente?: Associação de três cidadãos poderosos para açambarcar toda a autoridade.) — lá vamos assistir aos habituais discursos inconsequentes (estamos já e infelizmente na fase da chapada-na-cara e não na de festas nas costas ou palavras ocas de circunstância), seguindos dos não menos fatídicos desfiles militares (a propósito: já lhes garantiram o pagamento dos salários em tempo útil?).
Nunca fui revolucionário (nem sequer de Esquerda, estritamente falando, me considero) mas... aquilo que, à época, me pareceram os salutares "Ideais de Abril" eram para chegarmos aqui? Onde será que *todos* errámos??
Só rezo para que consigamos chegar ao 25 de Abril de 2012 — não falo do de 2013 porque o Mundo pode acabar em 21 de Dezembro de 2012 e o nosso (Portugal) já está nos estertores finais...
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