Parece uma daquelas frases feitas, lamecha, inconsequente. Mas por acaso não é (esse o sentido que lhe quero dar). Acrescentaria, mesmo, que o amor é intemporal. Isto veio à minha cabeça a propósito do filme argentino "O Segredo dos Seus Olhos" (Juan José Campanella, 2009, justo vencedor dos Óscares de 2010 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro). Vi-o há um par de dias em gravação na box do cabo. Um crime e uma história de amor que, afinal, encerra outra, talvez a mais importante, verdadeira história do tal amor lindo — a expressão causa-me alguma estranheza, confesso — e tão eterno quanto humanamente possível, porque não vivido senão dezenas de anos depois mas nunca tendo deixado de lá estar. Deu-me que pensar. Estas histórias de encontros e desencontros, vistas no cinema mas também lidas, tocam-me de alguma forma. Revejo-me nelas e delas alimento uma parte da minha experiência. Pensando bem, o amor não é lindo. É estranho...
Viajo muito e ininterruptamente. Dentro de mim, principalmente (para mal dos meus pecados).
Aviso à navegação: é de esperar muita turbulência. Apertem os cintos.
IMPORTANTE: Não se devolvem bilhetes.
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Talk to me baby
Tell me what you’re feeling
You say you don’t need to go
Don’t you pretend you didn’t know
I wanted this forever
Girl I saw it in your eyes
And baby I can read your mind
And expectations were not insight
You knew that talking dirty to me on the floor would get me here
Cause we both wanted to do this but I could tell that you were scared
Cause you thought there was more to us but you knew how this would end
It’s gonna end how you expected girl you’re such a masochist and I ask why
And you reply
I like the thrill
Nothing’s gonna make me feel this real
So baby don’t go home
I don’t wanna spend tonight alone
Baby please
Would you end your night with me
Don’t you leave me all behind
Don’t you leave my little life [x2]
No no no no no[x6]
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Note to self...
Não olhar para trás (?).
"Todos nós vivemos do passado, e pelo passado morremos."Goethe
![]() |
| Foto: lauralaingphotography.com |
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
James Blake - A Case of You
Hoje (?) estou assim. Sinto cada palavra deste poema como a unha de uma criatura selvagem a cravejar-se-me pelas costas abaixo. Consigo mesmo sentir o cheiro do (meu) sangue. Mas não me sai das costas (afinal), vem do mais profundo da minh'alma...
Just before our love got lost, you said
"I am as constant as a northern star"
And I said, "Constantly in the darkness
Where's that at?
If you want me I'll be at the bar."
On the back of a cartoon coaster
In the blue TV screen light
I drew a map of Canada
Oh Canada
With your face sketched on it twice
Oh you're in my blood like holy wine
You taste so bitter and so sweet
Oh I could drink a case of you darling
Still I'd be on my feet
Oh I would still be on my feet
Oh I am a lonely painter
I live in a box of paints
I'm frightened by the devil
And I'm drawn to those ones that ain't afraid
I remember that time you told me you said
"Love is touching souls"
Surely you touched mine
'Cause part of you pours out of me
In these lines from time to time
Oh, you're in my blood like holy wine
You taste so bitter and so sweet
Oh I could drink a case of you darling
And I would still be on my feet
I would still be on my feet
I met a woman
She had a mouth like yours
She knew your life
She knew your devils and your deeds
And she said
"Go to him, stay with him if you can
But be prepared to bleed"
Oh but you are in my blood
You're my holy wine
You taste so bitter, bitter and so sweet
Oh, I could drink a case of you darling
And I would still be on my feet
Oh I would still be on my feet
Just before our love got lost, you said
"I am as constant as a northern star"
And I said, "Constantly in the darkness
Where's that at?
If you want me I'll be at the bar."
On the back of a cartoon coaster
In the blue TV screen light
I drew a map of Canada
Oh Canada
With your face sketched on it twice
Oh you're in my blood like holy wine
You taste so bitter and so sweet
Oh I could drink a case of you darling
Still I'd be on my feet
Oh I would still be on my feet
Oh I am a lonely painter
I live in a box of paints
I'm frightened by the devil
And I'm drawn to those ones that ain't afraid
I remember that time you told me you said
"Love is touching souls"
Surely you touched mine
'Cause part of you pours out of me
In these lines from time to time
Oh, you're in my blood like holy wine
You taste so bitter and so sweet
Oh I could drink a case of you darling
And I would still be on my feet
I would still be on my feet
I met a woman
She had a mouth like yours
She knew your life
She knew your devils and your deeds
And she said
"Go to him, stay with him if you can
But be prepared to bleed"
Oh but you are in my blood
You're my holy wine
You taste so bitter, bitter and so sweet
Oh, I could drink a case of you darling
And I would still be on my feet
Oh I would still be on my feet
Beirut - Port of Call
And I, I called through the air that night
A calm sea voiced with a lie
I could only smile, I've been alone some time
And all, and all, it's been fine
And you, you had hope for me now
I danced all around it somehow
Be fair to me, I may drift a while
Were it up to me, you know I'd
I, I called through the air that night
The faults were swarming inside
Was it infantile, that which we desired?
Were it up to me, all from your eyes
And I, I called through the air that night
My thoughts were still buried inside
We were closer then, I've been alone some time
Filled you glass with gin
Filled your heart with pride
And you, you had hope for me now
I danced all around it somehow
Be fair to me, I may drift a while
If there's a plan for me
Would it make you smile?
No, don't want to be there for no one
I can see
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Desinteressante
Blog desinteressante. Vida desinteressante. (admito ter trocado a sequência) Nunca antes tinha estado deprimido. Neste estado de desalento e ausência de motivações já estive — todos, alguma vez na vida o estivemos — mas nunca, como até ao presente, tão em baixo. Sinto-me na sub-sub-sub-cave da existência. Uns metritos mais (ainda) e de certeza-certezinha que irei dar de caras com o Hades. Espero que ele esteja com pachorra para me aturar, pois caso contrário irei dar-lhe cabo do sistema e da rotina. Rodeie-me de quem me rodear (muitos ou poucos) nem assim me sinto melhor (diferente). Sinto-me alienado de tudo. Depois de há dias ter dito que ia parar, nem nisso consigo ser coerente. De alguma forma sinto-me impelido de para aqui vir verter seja lá isto o que for. Palavras. Queixumes. (falta de) Ideias... Enfim. O que vale é que logo no cabeçalho deste espaço que tive a honestidade de avisar os incautos de que a viagem seria turbulenta (não me ponham processos em cima, porque vocês foram avisados com a devida antecedência). Talvez que devesse ter mais claramente redigido uma declaração dos direitos do (meu) vistante, tipo o aviso Miranda (mas adaptado) que os polícias das séries televisivas repetiram tanta vez que o consigo citar de cor...
"Tem o direito de nada dizer ou comentar. Tudo o que disser ou fizer depois de ler isto poderá e será usado contra si algures numa plateia online. Tem o direito de se defender. Se não tiver quem o defenda não espere que eu o faça por si. Faça como eu: crie um blog ou peça a alguém que lho crie. Percebe estes direitos que acabei de lhe ler?"
Pronto. Era isto.
P.S.: Sim, já tomei o comprimido. Não, ainda não fez efeito(s)...
Pronto. Era isto.
P.S.: Sim, já tomei o comprimido. Não, ainda não fez efeito(s)...
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Perene
Apetece-me dormir o sono profundo,
O sono dos bebés tranquilos
que da inocência vida fazem.
Anseio pela calma e paz
do momento em que se jaz
sentindo a passagem do Tempo.
Do momento fugaz
que se faz eterno.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Ozric Tentacles: por detrás da prenda
Quase todas as prendas que recebemos têm por detrás uma história. Pelo menos quero assim acreditar; gostava que todas elas significassem algo, para o presente e para o futuro, ligando indelevelmente quem as dá a quem as recebe. É o caso do disco de que vou falar. Para começar, foi completamente inesperada a sua oferta, o que a torna ainda mais singular e importante. Tudo nasceu de uma troca de tweets com um dos mentores do podcast Proggy Style Radio Show hospedado no site Silhobbit.com, um dos que sigo na área do Rock Progressivo (passe a publicidade, justíssima, deixo aqui a dica de o passarem também a seguir). O mais curioso foi que aqueles tweets começaram com uma conversa sobre futebol, o Benfica e o Manchester United. Palavra puxa palavra (perguntei se o próximo podcast iria mencioná-la) e o Charlie O'Mara disse que "provavelmente" e pediu-me que sugerisse um tema musical para acompanhamento. "Discos pedidos" no Prog são para mim uma novidade mas lá avançei alguns nomes de bandas que gostaria de ouvir no programa e que nele têm sido pouco divulgadas (das clássicas às actuais). Das bandas mais recentes e ainda no activo, os Ozric Tentacles foram a minha escolha imediata. E dispara logo o Charlie "Eu tenho o álbum mais recente deles! Queres?" Atendendo a quão obscura a banda sempre foi (e logo em Portugal...) e como é difícil encontrar nas lojas físicas seja o que fôr das suas edições discográficas (apesar de que com com este já perfazem 14 os CDs que possuo da sua extensa discografia de 28 álbuns) a pergunta caíu como se se perguntasse a um cego se queria ver... E, passados uns dias, aterrou no nosso país a minha edição do 28º álbum dos Ozrics, acrescida de todos aqueles condimentos que a tornam ainda mais deliciosa.
Passando para o trabalho propriamente dito, lançado no passado mês de Outubro, Paper Monkeys não desilude os indefectíveis da banda. Desde 1983 que a sua configuração original passou por várias alterações mas sempre conseguiu manter o estilo que lhe é característico, tanto melodicamente quanto ao nível das influências que por ela passam, no seu psicadelismo mesclado com electrónicas (nuns temas mais evidentes que noutros), a sempiterna batida Reggae de que nunca se descolaram completamente, bem como da sua reinterpretação daquilo que se conheceu como Space Rock nos anos de 1970s numa fusão que posso apelidar de original (recordo que começaram desta forma já nos idos de 1983), de que saliento a acidez da guitarra do mentor Ed Wynne. Está tudo (ainda) neste trabalho de nove temas e 61 minutos de duração naquilo . Em sentido estrito e absoluto não se ouve inovação por aqui, "apenas" o continuar de algo que o quarteto domina e entrega com honestidade e virtuosismo. Para mim, nada mais se pode pedir de uma das bandas da área do Prog que mais agitaram a minha experiência musical na área desde os clássicos dos anos 70 do século XX. Para uns a justificar uma fidelidade sem remissão e, talvez para a maioria dos portugueses, uma surpresa a descobrir numa viagem de múltiplos e psicadélicos sabores. E venha de lá o próximo!
Em jeito de exemplo e para aguçar um pouco o (vosso) apetite, a faixa nº 4, "Knurl"...

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Em jeito de balanço
Por insondáveis (e impartilháveis) motivos a minha vida deu voltas e reviravoltas nos últimos meses. Pelo meio muita coisa tive de aprender (à minha custa).Várias pessoas que comigo privaram durante esse tempo testemunharam aquilo que fui e senti. Nunca escondi as várias batalhas e demónios (interiores) que então enfrentei. Hoje posso afirmar que foram combates que perdi em toda a linha e ordem. A minha vida mudou mas não está muito melhor do que estava então. Lições há que me foram apresentadas mas das quais pouco consegui retirar como conclusão. Deverei ser mais impermeável a elas do que gostaria. Quem sabe um dia. Por aquelas pessoas (sem excepção), e dos amigos que entretanto conquistei, sinto uma imensa gratidão pelos conselhos e opiniões que comigo generosamente partilharam e pelas experiências que nunca me negaram. Não planeei o que, nem como, vivi, durante os quase vinte meses que decorreram desde que o meu mundo iniciou a sua transformação. Hoje concluo que tinha de passar pelo que passei para que hoje aqui pudesse falar livremente. Não deixo, apesar de tudo, de me considerar enriquecido por todas as memórias que fizeram (e nunca permitirei que deixem de fazer) parte de mim durante aquele período. São marcas indeléveis do meu ser e que retenho e recordo ao escrever estas palavras no caderno para o qual as verto, nesta minha típica letra apressada e urgente. Tive de me afastar de muitas "realidades", perdendo-me um pouco do caminho que traçara até então, para que me pudesse ver de fora. Nem sempre (alguma vez??) gostei do que (me) vi... E por isso tentei ser melhor em certos aspectos da minha maneira de estar. Admito não ter ainda melhorado parte deles mas mesmo assim os principais foram modificados e corrigidos. Mas mesmo tendo melhorado, alguma insegurança e auto-crítica (excessivos?) ainda permanecem em alguma medida e dimensão. Tenho de os combater.
Já vivi e passei por muita coisa, nas dezenas de anos que me foram dadas até hoje para experienciar o que é estar vivo e ser-se pensante. Tive oportunidade de dar vida por quatro vezes (três delas materializando-se em descendência e a outra ao ter ajudado a iludir a morte de uma pessoa que me era completamente desconhecida). Além deste passado, sei que a continuidade do viver (enquanto viver) me irá dar muitas mais chances de encontros com o imprevisto e de ganhar novas experiências. Acredito que todas elas serão partilhadas com quem comigo estiver a percorrer este caminho e que todas elas me irão enriquecer como ser humano.
Propositadamente, repito, me mantenho críptico quanto aos detalhes que contornam o que está por detrás do que aqui sinto vontade de escrever. Alguns dos que o lerem saberão reconhecer a que eventos e tempos me refiro. Para esses — sem excepções — repito a minha sincera, permanente e profunda gratidão por tudo o que foram e representaram e partilharam durante aquele percurso acidentado. Todos me marcaram, mesmo aqueles que de alguma forma se apartaram da minha vida. Especialmente estes, mantê-los-ei bem junto ao coração. Nunca se sabe as voltas que a vida dá (lugar-comum) e para eles aquele espaço existe, à sua espera. Até ao virar das esquinas da Vida, a todos vós.
Já vivi e passei por muita coisa, nas dezenas de anos que me foram dadas até hoje para experienciar o que é estar vivo e ser-se pensante. Tive oportunidade de dar vida por quatro vezes (três delas materializando-se em descendência e a outra ao ter ajudado a iludir a morte de uma pessoa que me era completamente desconhecida). Além deste passado, sei que a continuidade do viver (enquanto viver) me irá dar muitas mais chances de encontros com o imprevisto e de ganhar novas experiências. Acredito que todas elas serão partilhadas com quem comigo estiver a percorrer este caminho e que todas elas me irão enriquecer como ser humano.
Propositadamente, repito, me mantenho críptico quanto aos detalhes que contornam o que está por detrás do que aqui sinto vontade de escrever. Alguns dos que o lerem saberão reconhecer a que eventos e tempos me refiro. Para esses — sem excepções — repito a minha sincera, permanente e profunda gratidão por tudo o que foram e representaram e partilharam durante aquele percurso acidentado. Todos me marcaram, mesmo aqueles que de alguma forma se apartaram da minha vida. Especialmente estes, mantê-los-ei bem junto ao coração. Nunca se sabe as voltas que a vida dá (lugar-comum) e para eles aquele espaço existe, à sua espera. Até ao virar das esquinas da Vida, a todos vós.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Percursos de vida
Hoje ocorreu-me falar deste tema. Estava na banheira a tomar duche quando me surgiu assim do nada — há quem cante debaixo de água, eu filosofo e penso… na Vida. Nunca li seja o que for sobre “percurso(s) de vida” nem mesmo consultei a Wikipedia, por isso vou aqui deixar o que eu acho sobre o assunto.
O percurso de vida é assim, tipo, como que andarmos num passeio no qual os incautos se arriscam a pisar o cocó que os outros deixaram para trás. Isto, claro, só acontece aos mais distraídos. Os mais atentos gabam-se de ter feito um percurso sem incidentes nem necessidades de limparem os pés no capacho que pode ser as costas de alguém (também estes a percorrerem o seu próprio caminho). O percurso de vida, tal como o vejo, é uma inevitabilidade. Desde que se nasce até que nos finemos, todos fazemos uma espécie de balanço daquilo que foram os resultados das nossas escolhas, ou falta delas. É isso: ele é sempre pensado em termos de Passado. Nunca (ou raramente, vá) as pessoas pensam nele em termos do Futuro. “O que virei ainda a percorrer? O que estará perante mim e como lidar com isso?”
Eu sou dos que se inclui no primeiro grupo, na maior parte do tempo, embora admita que também tento avançar o bio-relógio para ver o que poderei “ser”, ou o que me poderá esperar ao virar alguma esquina da vida. Mas é quase sempre uma tentativa falhada. É mais fácil, admito, olhar-se para trás e chegar a uma série de constatações sobre aquilo que fomos e por que já passámos até ao momento em que pensamos nisso. O meu? Não me orgulho dele, se considerar os anos mais recentes (uns dez, doze). Digamos que me fartei de pisar cocó e só “agora” olho para a sola dos sapatos! É que nem a merda me cheirou, a não ser quando parei um bocado — finalmente! — e comecei a olhar à volta. Como não sou daqueles que limpam (nunca consegui nem tentar) as solas em costas alheias, para usar a imagem que acima criei, não tive outro remédio senão olhar para a coisa de frente e tomar decisões. “OK, o que podes fazer para limpar a porcaria?” Ora aqui reside outra parte chata do “percurso de vida”: quando se pensa nele, versão ‘Passado’, é quase sempre para lamentar alguma coisa! E parece que só tem sentido depois de acontecer… Além do mais (terceira chatice associada) serve quase sempre para que terceiros, estranhos mesmo, nos avaliem! “Fulano-de-tal teve um percurso de vida x e y…” dito assim, em conversas de corredor, como se estivessem num velório. Arrepiante, é o mínimo que posso dizer para classificá-lo.
Decidi há já algum tempo que ia mudar este estado de coisas. Doravante e sempre que, no chuveiro ou noutro local, me puser a pensar no (meu) “percurso de vida”, quero fazê-lo com a consciência de que fiz as minhas escolhas mas que me mantive devidamente atento ao trilho e, muito mais importante, consciente de que na vida os percursos não se fazem sozinhos. Há sempre alguém ao nosso lado, alguém que nos ajuda a valorizá-los e que os (e “nos”) enriquecem. O meu “percurso de vida” jamais será o mesmo, quando nele pensar daqui a uns anos. Mas sei que vai ser bem melhor que o anterior.

Aquele

Sempre fora um sonhador. Tão virado para fora que não saía dentro de si próprio. Sempre tão absortamente ausente do que o rodeava e, no entanto, alerta ao que o rodeava. Explicá-lo é apenas parte do problema. Do desafio que é o seu ser. Não fazia de propósito. Nunca o fez (disse). Era tudo mais forte que ele, como se fosse uma criança que, sempre inocente, se deixasse encantar pelo que o rodeava a ponto de se abstrair precisamente do que o rodeava. [como se vê, eu próprio tenho dificuldade em explicá-lo]
Nasceu com um nome sagrado, da Trindade. Nunca lhe deu importância. Um nome é apenas um nome. Palavras que se associam a uma pessoa, para a identificar. Apesar de o achar curioso, nunca quis saber os detalhes da razão da sua escolha (tinha estes rasgos de minimalismo desprendido). Qualquer coisa a ver com uma história de família do avô materno. Mesmo assim, o sagrado sempre o atraiu. Talvez por sentir que não pertencia a esta realidade, na qual se movimentava pouco à vontade. Não era “religioso” (apesar de baptizado) mas sempre sentira uma reverência — uma atracção? — por tudo o que era divino, misterioso. Isso era algo que o tirava do seu presente. Adorava embrenhar-se nos mistérios que cercavam o oculto. Sentia-se atraído para ele. Mas nunca teve pretensões, ou se deixou transformar (achava ele), por isso. Estranhamente, por vezes até dava a entender exactamente o oposto. Que não ligava a essas coisas. Outra estranheza da sua personalidade conturbada.
Achava, algo frustradamente, como todos os demais, que estava cá por alguma razão, mas que simplesmente ainda não descobrira qual seria. Já tinha vivido umas dezenas de anos (não era fisicamente jovem) mas, talvez finalmente (desabafava de si para si) e até o seu agora, a vida tinha sido uma espécie de encadear de eventos, alguns deles estranhos à sua vontade, outros que lhe iam surgindo à frente como uma espécie de ordem-natural-das-coisas. Algumas das vezes, mesmo, achava que tinha sido conduzido até eles um pouco contra a sua vontade mas tinha-se deixado ir, lamentava-o agora. Afirmação era algo que também não dominara a maior parte da sua vida até então. Passividade? Comodismo? Poupança de energias? Fatalismo? Desinteresse? Um pouco de todas, ao que lhe parecia, pensando em retrospectiva. E não gostava de chegar a essa conclusão. Quem gostaria de admitir que pelo menos metade da sua vida até ao momento poderia ter tido um rumo completamente diferente, se tivesse tomado outras atitudes e decisões?
Nunca tivera paixões. Dignas desse termo. Nem namoros dignos de registo (apenas um; talvez). Nunca lhes tinha sentido a falta, ou impulso para. Tudo o que tinha à volta (e o que construía mentalmente) bastava-lhe. Até neste aspecto tivera um percurso pouco comum. Sempre absorto em algo. Como que à procura nem sabia bem do quê. Casou-se e teve filhos. De novo, a “ordem-natural” a impor-lhe um rumo. Mas a partir de determinada altura (tarde demais?) percebeu que as coisas não andavam bem. Teria aberto finalmente os olhos? Ter-se-ia visto de fora e não só de dentro para dentro? Como teria começado (não se apercebera) o princípio de um fim na sua vida? Nunca o soubera, exactamente. Estas coisas não surgiam de uma linha precisa, como a partida ou a chegada de uma corrida. Desistira de o entender, de o buscar, esse momento de viragem. Mas seria algo de congénito? Talhado para falhar? Ou destinado a rever-se de "fora", para melhor apreender e valorizar o "dentro"? Pensava no futuro...
Entretanto, os dias (os anos) iam passando. Teve filhos. Amava-os muito. Eram o seu orgulho. Dedicara-se muito a eles e a quem dera tudo de si. Tinha uma relação com eles, não do habitual pai-para-filho, mas mais como de um irmão-para-irmão. Não eram seus filhos. Eram os irmãos que nunca tivera e tanto desejara. Se os tivesse tido sentia que poderia ter sido outra pessoa. “Melhor”, pensava. A solidão da infância tinha sido outro peso com que tivera de lidar, especialmente depois de, muito cedo (demasiado cedo), ter saído da vila que lhe era familiar e onde tivera verdadeiros amigos. Amigos com quem fora perdendo o contacto com o passar dos anos. A partir desse momento, marcante, quase que desistira de os cativar, criar relações daquelas que todos gostariam de ter, íntimas, verdadeiras e duradouras. Relacionava-se com os colegas de trabalho, durante o trabalho, e pouco mais.
Como se vê, ele via o mundo sob uma luz algo negra. Enfim, cinzenta, digamos. Mais uma razão para dele se alhear, vivendo no seu próprio, bem mais luminoso e adaptável às suas vontades. Tentando manobrar minimamente bem no mundo dos outros. Um actor num teatro que não era o dele, mas de onde não conseguia sair depois de o encenador o lá ter colocado...
Quando era menino, na instrução primária, detestava fazer as então chamadas “redacções”. E no entanto aqui está ele a escrever estas palavras.
De si próprio.
Hum… Que prazer é escrever…
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
E constato que
Este blog tem tanta visita mas muito pouca, se alguma, pessoa a comentá-lo. As visitas hoje em dia são "de médico"?? Gostava de ler o retorno de quem por aqui passa. Mesmo que nada de bom tenham para dizer do que leiam. :p
Puzzle
Gosto de puzzles. Sempre gostei da atenção que requerem e, simultaneamente, da distração que provocam. Aquela busca da peça perdida, a única no monte de todas aparentemente iguais evoca-me sempre a minha própria existência. Está na hora de reconstruir o puzzle que começei e ainda não estava acabado. E vou atrás da tal missing piece! A tal que, estando no conjunto do monte de peças, sempre esteve ali e não a via (não a quis ver?). Agora destaca-se.

Rumos
Mais uma vez na hora de fazer opções de vida. Uns vivem bem com certas situações e outros reagem de forma oposta aos mesmos estímulos. Todos lutam por encontrar o seu rumo. Quem se esquece de o prosseguir certamente cairá no abandono, pois nada há de pior (digo eu) do que traçar um rumo na vida e não aproveitar um(a) companheiro(a) de viagem. Eu preciso de ter ao meu lado um companheiro de viagem porque cansa muito (demais) viajar dentro de mim. É de enlouquecer, por vezes. Por outro lado, há que ter presente quando alguém não quer mais ser nosso parceiro e respeitar a sua decisão. A companhia, sendo quase tão importante quanto o destino, deve olhar para o mesmo mapa que nós, caso contrário o percurso tornar-se-ia tortuoso demais para ser desfrutado. Dito isto, também acredito que haja caminhos que se reencontram e se cruzam com o nosso algures lá mais à frente. Tenho de mudar de mapa. Para continuar a caminhar...

Emerson, Lake & Palmer, "Battlefield" (Tarkus, 1971)
domingo, 4 de dezembro de 2011
Num quarto separado
Num quarto separado
Num murmúrio sussurrado,
Duas vozes se interpelam,
Gesticulam sons que apelam.
Do viver sem o ser,
Do viver sem se sentir.
Onde vai isto parar?
Este viver sem amar,
Esta paixão que o não é,
Onde nos finámos em gestos de rapé?
Num quarto separado
Num murmúrio sussurrado,
Duas vozes se interpelam,
Gesticulam sons que apelam.
Do viver sem o ser,
Do viver sem se sentir.
Há lições a aprender,
É no amar que se faz crescer.
Mas é no ser que se deve viver
E não no sofrer do que se não pode ter.
Num quarto separado
Num murmúrio sussurrado,
Duas vozes se interpelam,
Gesticulam sons que apelam.
Do viver sem o ser,
Do viver sem se sentir.
Num murmúrio sussurrado,
Duas vozes se interpelam,
Gesticulam sons que apelam.
Do viver sem o ser,
Do viver sem se sentir.
Onde vai isto parar?
Este viver sem amar,
Esta paixão que o não é,
Onde nos finámos em gestos de rapé?
Num quarto separado
Num murmúrio sussurrado,
Duas vozes se interpelam,
Gesticulam sons que apelam.
Do viver sem o ser,
Do viver sem se sentir.
Há lições a aprender,
É no amar que se faz crescer.
Mas é no ser que se deve viver
E não no sofrer do que se não pode ter.
Num quarto separado
Num murmúrio sussurrado,
Duas vozes se interpelam,
Gesticulam sons que apelam.
Do viver sem o ser,
Do viver sem se sentir.
Adele - I Can't Make You Love Me
sábado, 3 de dezembro de 2011
Se me esqueceres
Quero que saibas
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Tenho de aprender esta lição (repetir 10x)
Retirado, com a devida vénia, do blog Portugal Sem Prozac de João Monge Ferreira.
Faz parte da nossa perfeição sermos imperfeitos.
"É fácil aumentar a auto-estima: realize coisas boas e lembre-se de tê-las realizado. Você é demais!"
Lisa Engelhardt
É tudo uma questão de foco. A energia que dispendes orbitando os teus fracassos dispende-a em dar valor às tuas vitórias. Todos temos "crises de auto-estima": lidamos mais ou menos mal com as críticas que nos lembram que não correspondemos com uma imagem que queremos projectar de nós mesmos.
Contudo faz parte da nossa perfeição sermos imperfeitos. Se a escarpa fosse perfeitamente lisa o alpinista nunca conseguiria chegar ao topo. Ele precisa das falhas e imperfeições na parede para lhe servirem de apoio. Dedica-te a estudar como transformar as falhas em pontos de apoio. Estou convencido que esta será a competência mais importante que alguma vez possas dominar.
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